Escrito por Sam Shiraishi em Nov 5, 2008 in cotidiano e sociedade, política, preconceito.
Agora podemos dizer “I believe” e não mais “I have a dream“. É um fato, enfim. A manhã é de muitas homenagens a Barack Obama, recém-eleito Presidente dos EUA e ouvi um comentário de Mirian Leitão no Bom Dia Brasil que traduz o significado da eleição do primeiro negro naquele que é o mais importante país branco do mundo. Ela lembrava que em meio século os EUA passaram de um país que não oferecia direitos civis igualitários aos negros para uma democracia que elegeu um presidente negro. Obama tem 47 anos e quando ele nasceu não existia ainda o sufrágio universal nos EUA - os negros conquistaram o direito ao voto em todos os estados há apenas 44 anos - e, na época, o casamento entre um negro e uma branca era praticamente um crime. Refletindo sobre isso, além de pensar no pai do novo presidente (um médico africano que pouco o influenciou), pensei sobre a mãe, uma branca do Kansas que fazia faculdade no Havaí e casou-se com um africano (não um afro-americano, como Obama e sua esposa Michelle) e posteriormente com um asiático (parte do preconceito religioso contra Obama é também por ter vivido na Indonésia, um dos grandes países muçulmanos). No seu discurso de vitória ontem Obama lembrou da avó materna, que faleceu poucas horas antes do início da votação e que foi a pessoa que o criou e educou. Esta mulher, que nasceu e cresceu numa América que há pouco deixara de fato a escravidão e vivia um regime de segregacionismo aberto (e oficial, regido por leis) não só foi capaz de criar uma filha que se casou com um “diferente”, como criou (bem) um neto mulato num país branco. Não sei muito do Kansas, mas não vejo o estado, historicamente, como um dos mais abertos e engajados na luta pelos direitos civis. E mesmo que fosse, quando Obama passou a morar com os avós (pelo que sei no ainda no Havaí) a luta de Martin Luther King era ainda um sonho, acalentado por muitos, mas um sonho distante. Oprah Winfrey, Jesse James e muitos outros expoentes afro-americanos que vi na TV têm direto de festejar muito, mas todos nós temos direito de considerar o dia de hoje um “Beautiful Day”, um dia especial para a humanidade. E temos um sorriso no rosto pela esperança de uma nova era, de que, como disse hoje Arnaldo Jabor, Obama dê início ao verdadeiro século XXI.
Revista Época Nº 546 – 3 de Novembro de 2008. Ivan Martins.
O QUE A VITÓRIA DE BARACK OBAMA REPRESENTA PARA A ECONOMIA GLOBAL, PARA O FUTURO DO PLANETA - E PARA SUA VIDA. A eleição realizada nos EUA no dia 4 de novembro de 2008, já se converteu em marco antes mesmo de seu resultado vir a público. Ela ocorreu em circunstância tão graves – a maior crise econômica desde 1929, com traços horrivelmente semelhantes aos da Grande Depressão – que faz lembrar a eleição em que Franklin Delano Roosevelt bateu o republicano Herbert Hoover, em 1932. A primeira das três vitórias consecutivas de Roosevelt influenciaria o capitalismo e a sociedade americana pelos 50 anos seguintes. Marcaria aquele que Henry Luce, o criador da revista Time, chamaria de o século americano – o século XX. O personagem central da eleição atual é Barack Hussein Obama, de 47 anos, o primeiro negro presidente num país que até 1963 praticava a discriminação legal. Sua ascensão é um exemplo espetacular da capacidade de auto-regeneração americana. Ela constitui uma revolução política e social maior do que foi, em sua época, a vitória do católico Kennedy, presidente aos 43 anos. A história de Obama se assemelha, de alguma forma, à do presidente Lula, um nordestino, sindicalista e sem diploma – uma combinação biográfica que, em outros tempos, não lhe permitiria chegar nem perto do Palácio do Planalto. Como Obama, Lula superou preconceitos. Sua vitória tornou mais arejada a vida pública brasileira. Como Lula, Obama promete usar a renda e o poder do Estado para corrigir injustiças sociais. Como Lula, Obama desperta esperanças enormes e, provavelmente, injustificadas. Se tiver sorte e debelar a crise econômica ao longo de seu mandato, Obama poderá ser comparado a Roosevelt – como Lula já foi comparado a Getúlio Vargas, o grande herói das massas trabalhadoras brasileiras. Há também grandes diferenças entre Obama e Lula. Obama pertence a uma minoria racial, mas, do ponto de vista cultural, faz parte da mais refinada elite americana. Formou-se em Direito com distinção em Harvard, uma das melhores universidades do mundo. Casou-se com uma advogada empresarial bem-sucedida, Michelle. Viveu com ela e as duas filhas numa luxuosa casa de Chicago. Embora jovem, já venceu duas eleições legislativas, escreveu dois (bons) livros autobiográficos e conquistou fama de excelente orador. É um homem culto, hábil e muito acima da média em inteligência. Para chegar à disputa presidencial, Obama bateu ninguém menos que Hillary Clinton, um mito entre as feministas americanas, mulher do poderoso ex-presidente Bill Clinton e senadora pelo Estado de Nova York. Ter vencido Hillary é um feito e tanto para um mulato, filho de um pai africano ausente, criado pela família da mãe – gente branca e dura, de classe média baixa – em lugares exóticos como Indonésia e Havaí. Para chegar aonde chegou, numa sociedade competitiva como a americana, enfrentando duas campanhas das mais agressivas – contra Hillary, nas primárias do Partido Democrata, e agora, contra o candidato republicano, John McCain -, Obama só poderia ser alguém excepcional. Outro indicador do carisma de Obama foi colhido fora dos Estados Unidos. O Instituto Gallup entrevistou milhares de pessoas em 76 países, entre maio e outubro de 2008. Descobriu que 24% preferem o democrata como presidente – e apenas 7% escolheriam McCain. O mundo, claramente, prefere Obama. “Os europeus estão hipnotizados por ele”, diz Jean-Pierre Lehmann, professor da escola suíça de negócios IMD. Acompanhar atentamente o que acontece nos EUA não é um exercício fútil de internacionalização. Trata-se de legítimo interesse próprio. Os eventos nos mercados financeiros desde o último dia 15 de setembro deixaram claro que aquilo que acontece nos Estados Unidos diz respeito não só aos americanos, mas a todos nós. Quando o banco de investimentos Lehman Brothers pediu concordata em Nova York, lançou o mundo numa montanha-russa em que todos continuam gritando, em vários idiomas. O futuro dos Estados Unidos pode afetar o plantador de cana em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e o terrorista muçulmano oculto nas montanhas do Afeganistão. O primeiro pode sentir imposição ou a retirada de sobretaxas sobre o etanol brasileiro, enquanto o segundo vai morrer ou triunfar dependendo das políticas adotadas pelo presidente Barack Obama contra os talebans. Com 21% do PIB e 51% dos gastos militares do planeta, os Estados Unidos são a nação mais importante e poderosa do mundo. Claro, não são mais a potência que conteve sozinha a União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial. Tampouco se parecem com o império sem rival que surgiu, momentaneamente, com a queda do Muro de Berlin, em 1990, e que levou Francis Fukuyama a falar no “fim da História”. Mas sua influência e seu poder são incomparáveis. Os EUA não podem ser derrotados no terreno militar ou ignorados na arena econômica. No mês de outubro de 2008, foi preciso uma ação coordenada de diversos bancos centrais para conter a crise financeira que ameaçava engolir a economia global. Mas a coordenação dos BCs de diversos países só foi possível depois que o Federal Reserve, o banco central americana, resolveu encabeçá-la. Sozinhos, os Estados Unidos já não comandam. Mas, sem eles, não há comando. O poder americano não é mensurável apenas em termos militares e econômicos. Sua música, seus filmes e sua tecnologia estão presentes em todos os países – inclusive pela internet, uma invenção americana. Influenciam gente de todas as cores, culturas e religiões, numa manifestação tangível do que o cientista político Joseph Nye chamou de “soft Power”, o poder de influenciar pelas idéias – em oposição ao uso do canhão ou do talão de cheque.
“Ele poderá ter pela frente um par de anos terríveis, que prejudicariam sua reeleição”, afirma José Alfredo Graça Lima, experiente diplomata brasileiro a cargo do consulado de Nova York. Não é difícil imaginar anos assim. A crise econômica já fez o PIB americano encolher 0,3% no último trimestre. Trata-se, oficialmente, de uma recessão. Ela vai durar pelo menos um ano inteiro, consumirá verbas preciosas – o déficit americano já está em US$ 1 trilhão por ano- e exigirá atenção e muita energia. Pode destruir uma carreira política ou construir um mito. Não menos arriscado é o espectro das duas guerras. Iraque e Afeganistão consomem US$ 165 bilhões por ano (que se somam aos US$ 500 bilhões gastos pelo Pentágono) - e não há horizonte de vitória. Os Estados Unidos tiveram quase 550 baixas militares neste ano nas duas frentes. No Afeganistão, os insurgentes estão claramente vencendo as tropas da coalizão montada por Bush. Obama prometeu sair do Iraque “o mais rápido possível” para concentrar esforços no combate aos talebans afegãos. A implementação dessa decisão pode mostrar-se dificílima. Kennedy, a quem Obama frequentemente é comparado, foi morto em 1963 sem conseguir controlar o Pentágono (que tocava a Guerra do Vietnã por conta própria) e os serviços secretos do país (que combatiam Fidel Castro numa guerra nas sombras). Não há por que imaginar que Obama terá vida mais fácil com esses famosos poderes paralelos. Também não será fácil lidar com a crise no sistema de saúde – que deixa 45 milhões de americanos sem plano de saúde – ou com a decadência da indústria americana, que exporta empregos na mesma proporção com que importa bugigangas.
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