Denzel Washington

O furacão das telas
Denzel Washington fala de seu trabalho em Hurricane - O Furacão, pelo qual recebeu elogios e uma indicação ao Oscar.
Hurricane – O Furacão, estrelado por Denzel Washington, trata de um tema muito sensível: o preconceito racial nos anos 60 que, entre outros estragos à sociedade, levou um homem completamente inocente a passar 19 anos atrás das grades por um crime que não cometeu. Sempre ligado a causas sociais, o ator que faz o protagonista dessa saga que abrange trinta anos da vida do ex-lutador de boxe Rubin Hurricane Carter (e pelo qual foi indicado ao Oscar) falou com exclusividade à nossa correspondente em Los Angeles, Ruth Walsh. Entrevista em 25/11/2004
Denzel Washington - Li os dois livros em que o filme foi baseado – The Sixteenth Round e Lazarus and the Hurricane – e fiquei muito emocionado com a história. Primeiro, li The Sixteenth Round , escrito pelo próprio Hurricane, e fiquei muito impressionado. Quando recebi o convite para fazer o papel dele, claro que logo aceitei. Mas o filme não aconteceu logo. Decorreram seis anos entre uma coisa e outra. Há dois anos e meio o roteiro foi finalizado e, então, começamos as filmagens.
Denzel Washington - Primeiro, é uma história muito bonita de um homem que, apesar de toda a injustiça que sofre, nunca perdeu a esperança. Ele é uma inspiração para toda esta geração de pessoas que ainda hoje sofre com a discriminação racial. O mais importante é que a história dele não tem um discurso radical, não sugere nada drástico. Mas, acima de tudo, trata da esperança e de que a justiça pode tardar mas um dia chega. Não é apenas sobre racismo, sobre brancos versus negros, mas sobre o valor da liberdade e a injustiça social que atinge a qualquer minoria, tenha ela a cor que seja.
Denzel Washington - Essa foi uma das melhores partes, porque eu tinha de me exercitar como louco (risos). Primeiro, tive de perder 20 quilos, no decorrer de um intenso condicionamento físico que fiz sob a coordenação de um treinador particular. Treinei boxe com um preparador. Fiz ginástica diariamente por muitas horas, durante mais de seis meses, pois as cenas de luta tinham de ser feitas no início, para depois eu voltar à minha forma normal e fazer o Rubin durante os vinte anos que se seguem na história. Por um lado foi bom porque atingi um supercondicionamento físico. Cheguei a fazer mil abdominais por dia! Por outro lado foi duro porque eu não podia sair da linha (risos).
Denzel Washington - Primeiro, tenho de agradecer ao pessoal da maquiagem que muito me ajudou (risos). Falando sério, foi um desafio e tanto porque o personagem não apenas envelhece e muda por fora, mas muda muito por dentro. Isso requer muito da interpretação. Primeiro, ele é um sujeito que tenta levar sua vida, após sair do reformatório, mas que tem um passado que não o deixa em paz. Depois, ele consegue descobrir algo que gosta de fazer e vem o sucesso. Mas quando ele está no ápice da carreira se vê, mais uma vez, sofrendo injustiça e acaba na prisão. Ele se revolta, se acostuma com a vida no cárcere, mas nunca perde a esperança de um dia ser libertado. Aliás, isso foi o que me atraiu neste projeto como ator. Foi um trabalho dramático difícil, pois ele começa de uma forma, passa por muitas barras pesadas até a maturidade, quando se mostra tão digno, tão superior. Foi por isso que achei o papel tão bom de fazer.
Denzel Washington - Tivemos muitas conversas antes de começar a filmagem e isto foi essencial para o meu trabalho de composição. Ouvi suas histórias, falei de mim. Trocamos muitas informações e eu pude ir entendendo bem quem ele foi e quem era. Não só fisicamente... a voz, o maneirismo... mas também psicológica e espiritualmente. Sua presença nas locações foi importantíssima. Ele nos encheu de inspiração, pois é um homem extraordinário. Os ativistas canadenses também contribuíram muito, conversando com os atores. É difícil fazer um personagem que é uma pessoa real, porque você tenta se aproximar ao máximo de quem ela é nas expressões, mas você não pode fazer uma caricatura. Tem de ser sutil, vir de dentro.
Denzel Washington - Acho que é a esperança. Por mais que as coisas pareçam más, erradas, injustas, tenha esperança. Lute por sua causa, porque, se ela é justa, no final, você vencerá.
Denzel Washington - Tenho uma história meio engraçada. Não venho de família do meio do entretenimento. Ao contrário, meu pai era pastor de igreja. Acho que herdei dele a habilidade de saber contar, interpretar uma história, seja ela uma passagem bíblica ou um romance.
Denzel Washington - Não. Para dizer a verdade, comecei a trabalhar aos 11 anos durante meio expediente, depois da escola, numa barbearia e depois num salão de beleza. Meus pais se divorciaram algum tempo depois disso e eu e minha irmã mais velha fomos para um colégio interno. Depois disso, fui para a Universidade Forham, em Nova York, onde estudei Arte de Contar Histórias e Jornalismo. Comecei a participar do teatro da faculdade e fiz até Othello. Em 1977, me formei e me mudei para San Francisco, onde fui estudar teatro no American Conservatory Theater . A partir daí fui fazendo pequenos papéis em filmes para a TV, fiz um pouco de Shakespeare no teatro etc.
Denzel Washington - Depois de fazer, em 1982, o filme St. Elsewhere , para a TV, cuja acolhida foi muito boa, comecei a ser chamado para fazer pequenos papéis, o que culminou com Tempo de Glória , em 1989, pelo qual ganhei o Oscar.
Denzel Washington - Como disse antes, uma coisa que admiro no Hurricane é a garra e o seu sentido em relação ao social. Ao escrever a própria biografia em 74, ele não apenas denunciava um caso isolado, mas toda uma atitude contra o racismo, contra a injustiça social de modo geral. Até porque venho de uma família ligada em religião e, em certos valores morais, acredito que devemos todos nos ajudar. Participo muito de eventos para levantar verbas para instituições como Boys and Girls Club of America , The Gathering Place – uma instituição que cuida de doentes com AIDS –, a Fundação Infantil Nelson Mandela e também para a minha igreja, a Pentecostal de Los Angeles. Acho que esta é a minha contribuição social. Aproveito o fato de ser uma celebridade para ajudar os menos afortunados. |