Spike Lee

O mais famoso diretor negro do cinema americano

O gênero Blaxploitation, durante os anos 70, foi sucesso absoluto de público. Nas telas, negros em abundância vivenciavam cenas temperadas principalmente pelo sexo e pela violência. Sua decadência, no final da década seguinte, deixou uma lacuna para o público negro, que até então era sinônimo de entretenimento fácil, saía de cena para dar lugar ao cinema de conscientização, contestação e denúncia da condição e do preconceito sofrido pelo povo negro norte-americano. Spike Lee, em 1989, jogava na cara de todos o explosivo Faça a Coisa Certa.

Apesar de alçar a carreira do diretor ao sucesso, o filme não foi suficiente para que ele caísse nas graças de Hollywood e da Academia. Até hoje, após inúmeros e bem recebidos filmes e interpretações brilhantes de seus atores, o diretor não foi premiado com um Oscar. Cansado desta situação, Lee não deixa por menos e não faz questão de esconder sua insatisfação. Sempre que pode critica a indústria norte-americana e coloca seu dedo preto na ferida.

Spike Lee sabe, na realidade, que a forma como aborda o racismo é diferente de tudo que o cinema norte-americano tinha visto até então. A temática de seus filmes, que sempre abordam polêmicas e dramas que giram em torno do preconceito racial, deixa o espectador perdido e abrem mão de maniqueísmos. Ele mostra que o preconceito não atinge somente os negros; do mesmo mal sofrem os latinos e os mestiços.

O negro, visto por muitos diretores como uma massa oprimida e homogênea, ganha uma nova interpretação nas mãos de Spike Lee. Ele sugere que a sociedade norte-americana, principalmente dos grandes centros, é muito mais complexa do que se imagina. Dentro dessa massa negra há divisões, onde podem ser encontrados negros com os mesmos problemas do cotidiano de um branco da classe média, negros que reagem ao preconceito, negros que são preconceituosos com as demais cores e raças e até mesmo os negros alienados e que não se dão conta do mal que sofrem.

Shelton Jackson Lee, mais conhecido como Spike (ferrão), apelido dado pela mãe, nasceu em Atlanta, num período marcado pelo forte preconceito racial e pela intolerância. Bill Lee, o pai, músico que mais tarde participaria praticamente de todas as trilhas sonoras do filho, mudou-se com a família para o Nova York, no Brooklyn quando Spike tinha apenas três anos. Apaixonado pelo cinema desde sempre, ele nunca conseguiu se conformar com a maneira como seu povo era retratado nas telas, de forma passiva e estereotipada. Queria mostrar os problemas provocados pelo preconceito, pobreza e pela intolerância.

Graduado na New York University Film School, Spike Lee realizou Joe's Bed-Stuy, Barbershop: We Cut Heads , como projeto de graduação, seu primeiro filme e premiado em alguns festivais. Desde aquela época o diretor já era considerado uma grande promessa.

O diretor - infelizmente - têm alguns filmes inéditos no Brasil, como seu primeiro longa metragem She´s Gotta Have It (1986), que trata de uma história de uma garota que se relaciona-se com três rapazes e não consegue decidir com qual dos três quer ficar. Desde sua estréia, o diretor trata do preconceito racial de forma cômica, com leve doses de drama, fórmula que continuaria dando certo em seus filmes seguintes. She´s Gotta Have It também marca a estréia do diretor frente às camêras, tornado-se marca registrada de seus filmes sua participação como ator, seja como o protagonista ou em papéis menores.

Em seguida, Spike Lee filmou School Daze , que no Brasil virou Lute Pela Coisa Certa . School Daze também não seria lançado no Brasil, mas o estúdio decidiu voltar atrás e lançar tardiamente o filme, cujo título ganhou uma tradução de gosto duvidoso para atrair os espectadores que já haviam enchido as salas de cinema para assistir Faça a Coisa Certa .

Em 1989, com Faça a Coisa Certa ( Do The Right Thing ), o diretor parece encontrar exatamente a forma com que quer reproduzir o racismo sofrido pelos negros e ao mesmo tempo, dar um puxão de orelhas neles mesmos, com a frase de Martin Luther King: "A violência gera rancor nos que sobrevivem e brutalidade nos destruidores" e mostrando o preconceito que também sofrem os latinos que vivem nos Estados Unidos.

O filme seguinte, Mais e Melhores Blues ( Mo' Better Blues ), de 1990, decepcionou de certa forma os fãs, que esperavam algo mais explosivo e denunciatório depois de Faça a Coisa Certa . O filme marca o início de uma parceria do diretor com Denzel Washington, que renderia ao ator mais tarde uma indicação ao Oscar de Melhor Ator em 1992.

Mas Spike Lee retomou a polêmica de Faça a Coisa Certa , em 1991 com Febre da Selva . O filme traz o drama de um arquiteto (Wesley Snipes) que, após anos de um casamento bem-sucedido com uma negra, resolve ter um caso com a secretária do escritório, branca. Movidos pela "curiosidade" em manter uma relação inter-racial, os dois vêem a vida desmoronar pelo preconceito que têm que enfrentar e com que são tratados. Em 1992 o diretor lançou seu projeto mais ambicioso: a biografia do líder negro dos anos 60, Malcolm X. Lee filmou desde a época em que Malcolm X se metia em confusões, alisava os cabelos e namorava uma mulher branca, até sua morte, em 1965. Denzel Washington está perfeito no papel, apesar de não ter recebido o Oscar de Melhor Ator.

Com dificuldades para conseguir financiamento para seus filmes, Spike Lee ficou sem filmar até 1994. Nos anos seguintes, lançou um filme a cada ano, mas não com a mesma força dos anteriores, apesar de seguir com a mesma temática. Neste período estão produções como Irmãos de Sangue ( Clockers , em 1995), Garota 6 ( Girl 6 , em 1996) e O Verão de Sam ( Summer of Sam , de 1999), filme que conquistou maior sucesso durante este período.

Em 2000, Spike Lee voltou a mostrar todo seu potencial com A Hora do Show ( Bamboozled ). A história: o único redator negro de uma emissora de TV é encarregado de criar um programa no qual os negros sejam mostrados de forma estereotipada. Não contente com a incumbência, ele cria, com o objetivo de ser um fracasso, um programa no qual dois caipiras brancos pintam os rostos de preto. A surpresa: o programa torna-se sucesso de audiência. O filme critica a passividade dos espectadores, negros ou não, diante da péssima qualidade dos programas de TV.

Por preconceito ou não, os filmes seguintes do diretor, assim como outros trabalhos anteriores, permanecem inéditos no Brasil, ou vão direto para a programação das TVs a cabo, onde são exibidos uma única vez. Para 2003, é provável que seu novo filme, 25th Hour , ainda sem título em português seja lançado no Brasil.

Filmografia - Spike Lee

- Joe's Bed-Stuy, Barbershop: We Cut Heads - 1982

- She's Gotta Have It - 1986

- Lute Pela Coisa Certa (School Daze) - 1988

- Faça a Coisa Certa (Do The Right Thing) - 1989

- Mais e Melhores Blues (Mo' Better Blues) - 1990

- A Febre da Selva (Junlge Fever) - 1991

- Malcom X - 1992

- Crooklyn - Uma Família de Pernas para o Ar (Crooklyn) - 1994

- Irmãos de Sangue (Clockers) - 1995

- Garota 6 (Girl 6) - 1996

- Todos a Bordo (Get on the Bus) - 1997

- Quatro Meninas - Uma História Real (Four Little Girls) - 1997

- Jogada Decisiva (He Got Game) - 1998

- O Verão de Sam (Summer of Sam) - 1999

- A Hora do Show (Bamboozled) - 2000

- Os Verdadeiros Reis da Comédia (The Original Kings of Comedy) - 2000

- A História de Huey P. Newton (A Huey P. Newton Story) - 2001 (filme feito para TV à cabo)

- Jim Brown All American - 2001

- 25th Hour – 2002